Praias lotadas: Veranico e o período de férias também elevam o número de turistas na cidade (Foto: ABr)
Estado do Rio – O Rio de Janeiro amanheceu neste domingo (19) sob um cenário bem diferente do que vinha registrando nos últimos dias. Depois de enfrentar a madrugada mais fria de 2026, com mínima de 10,4°C na estação da Vila Militar, o estado entrou em um período de veranico — fenômeno caracterizado por cinco dias ou mais com temperaturas cinco graus acima da média histórica. A previsão da Climatempo indica ao menos dez dias consecutivos de sol, céu limpo e ausência de chuva, com máximas que já chegam aos 31°C neste domingo e podem alcançar 32°C na terça-feira (21).
A virada no tempo é provocada por um bloqueio atmosférico que impede a chegada de novas frentes frias e mantém o céu praticamente sem nuvens. O resultado é um contraste marcante entre madrugadas ainda geladas — já que a ausência de nebulosidade favorece a perda de calor durante a noite — e tardes cada vez mais quentes, à medida que o sol incide com mais força sobre a superfície.
Um inverno de extremos no Sul Fluminense
Nenhuma região do estado ilustra melhor esse contraste do que o Sul Fluminense. Foi lá, no Parque Nacional do Itatiaia, que o Brasil registrou o ponto mais frio do país em 2026: -11°C, marcados na estação Campo Belo, na parte alta do parque, próxima ao Pico das Agulhas Negras. O frio foi suficiente para congelar um lago e formar camadas de gelo em diferentes pontos da unidade de conservação, colocando o Rio de Janeiro — estado que a maior parte dos brasileiros associa a praias e calor — no topo do ranking nacional de frio durante o inverno.
Ainda na mesma semana, cidades da Baixada Fluminense e da região metropolitana também bateram recordes de mínima em 2026: Xerém, distrito de Duque de Caxias, chegou a 9,6°C, enquanto Seropédica marcou 10,4°C. Passados poucos dias, porém, esse mesmo território vive o movimento oposto, com o avanço do ar quente que caracteriza o veranico — uma alternância cada vez mais estudada por climatologistas como parte de um padrão de instabilidade e de eventos extremos mais frequentes, tanto de frio quanto de calor.
O que os dados de longo prazo mostram
Esse vaivém térmico chama atenção, mas o que sustenta a tese de aquecimento no Estado do Rio não são os extremos isolados, e sim as séries históricas. Um estudo de climatologia e tendências de extremos climáticos no Rio de Janeiro, construído a partir de dados observacionais entre 1961 e 2012, identificou aumentos estatisticamente significativos na temperatura máxima média nas regiões Metropolitana e Norte/Noroeste do Estado, com taxas de elevação entre 0,01°C e 0,08°C ao ano. Embora moderado ano a ano, esse ritmo se acumula: em cinco décadas, ele já representa graus inteiros de aquecimento em determinadas áreas fluminenses.
Dados mais recentes do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) reforçam esse cenário de calor mais frequente e mais intenso. Em janeiro de 2026, o órgão registrou temperaturas consecutivamente acima da média climatológica em todo o Estado. A média histórica da temperatura máxima em janeiro no Rio de Janeiro é de 31,2°C, calculada a partir do período de referência de 1991 a 2020. Já na série de 2003 a 2026 medida na estação da Vila Militar, a média das máximas de janeiro sobe para 33,2°C — dois graus acima da referência estadual, sinal de que os verões recentes têm sido sistematicamente mais quentes. Na mesma virada de ano, a capital fluminense chegou a 40,8°C, tornando-se a primeira capital brasileira a bater a marca dos 40°C em 2026, terceiro recorde de calor consecutivo naqueles dias.
Sul Fluminense: entre a serra fria e o calor que avança
O Sul Fluminense concentra, de forma particular, esse paradoxo. A região abriga tanto os pontos mais frios do Estado — na Serra da Mantiqueira e no Parque Nacional do Itatiaia, favorecidos pela altitude superior a 2.400 metros — quanto cidades de médio porte, como Volta Redonda, Barra Mansa e Resende, situadas em vales que registram forte amplitude térmica: madrugadas frias e tardes de calor intenso, exatamente o padrão observado nesta semana de veranico. A proximidade com a Serra facilita tanto a entrada de massas de ar frio vindas do Sul do país quanto o efeito oposto, quando bloqueios atmosféricos represam o ar quente sobre os vales, uma dinâmica que tende a se tornar mais errática à medida que o clima regional se aquece.
Meteorologistas apontam que o inverno de 2026 tem sido especialmente rigoroso no Centro-Sul do Brasil por causa da atuação de um El Niño de forte intensidade, o que ajuda a explicar tanto os recordes de frio do início de julho quanto a rápida guinada para o calor observada agora. Para especialistas, esse tipo de oscilação brusca — descrita como parte de um cenário de maior variabilidade climática — é consistente com o que se espera de um clima em transformação: eventos extremos, sejam frios ou quentes, tendem a se tornar mais frequentes, mesmo que a tendência de fundo seja de aquecimento.
O que esperar dos próximos dias
Segundo a Climatempo, o veranico deve se estender ao longo de toda a próxima semana em praticamente todo o Estado, com sol forte, baixa umidade relativa do ar — sobretudo à tarde e em bairros mais distantes do litoral — e ausência de chuva. As madrugadas, no entanto, continuarão relativamente frias enquanto o céu permanecer limpo, um efeito da perda de calor radiativo característico desse tipo de fenômeno.
O episódio serve como um retrato, em miniatura, do que os dados de décadas já vinham indicando: o Rio de Janeiro — e de forma emblemática o Sul Fluminense, com seus contrastes entre serra e vale — segue registrando extremos cada vez mais acentuados, dentro de uma trajetória mais ampla de elevação da temperatura em todo o território estadual.
