País – O Pix, sistema de pagamentos instantâneos desenvolvido pelo Banco Central, passou a integrar a lista de questionamentos do governo dos Estados Unidos ao Brasil. Para especialistas ouvidos pela Agência Brasil, a inclusão do sistema entre as justificativas apresentadas por Washington está relacionada principalmente a fatores geopolíticos e ao fortalecimento da autonomia financeira brasileira.
Na avaliação dos pesquisadores, mais do que uma eventual concorrência com empresas norte-americanas do setor de pagamentos, como Visa, Mastercard e WhatsApp Pay, o Pix representa uma redução da dependência do Brasil em relação à infraestrutura financeira controlada pelos Estados Unidos.
O professor de Economia da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), Maicon Cláudio da Silva, afirma que o avanço do Pix diminui a influência norte-americana sobre o sistema financeiro brasileiro.
“Esse tipo de medida deixa evidente que os EUA não querem perder esse poder que eles têm hoje sobre o sistema financeiro em boa parte do mundo. Não à toa, a China não usa Visa e Mastercard. Ela tem sistemas próprios, e isso tem a ver com uma maior soberania e autonomia desse país”, afirmou.
Segundo o economista, o Pix também ampliou a inclusão financeira no Brasil ao incentivar a bancarização da população e aumentar a movimentação de recursos pelo sistema bancário.
“Movimentos econômicos que antes ocorriam apenas em dinheiro passaram a ocorrer via sistema financeiro, através do Pix. Isso facilita o acesso das pessoas a contas bancárias e, eventualmente, também a cartão de crédito”, explicou.
Dados da Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs) mostram que, em 2025, os cartões movimentaram R$ 4,5 trilhões, crescimento de 10,1% em relação ao ano anterior, impulsionados pela expansão dos meios eletrônicos de pagamento.
Questão geopolítica
Para o professor de Geopolítica da Escola Superior de Guerra (ESG), Ronaldo Carmona, o Pix tornou-se um instrumento estratégico para ampliar a soberania econômica do Brasil.
Segundo ele, o sistema fortalece a capacidade do país de realizar operações financeiras com menor dependência de redes internacionais e favorece iniciativas de comércio bilateral em moedas nacionais.
Carmona destacou ainda que o Banco Central mantém acordos de cooperação técnica com dezenas de países interessados em desenvolver plataformas semelhantes ao Pix, o que amplia a projeção internacional do modelo brasileiro.
Impacto sobre sanções
Os especialistas também avaliam que sistemas nacionais de pagamento reduzem a capacidade de governos estrangeiros de aplicar sanções financeiras por meio de empresas sediadas nos Estados Unidos.
Maicon Cláudio da Silva lembra que, em casos de sanções econômicas impostas por Washington, empresas norte-americanas de meios de pagamento costumam cumprir as determinações do governo dos EUA, o que pode restringir operações financeiras em determinados países ou para pessoas alvo das medidas.
Movimento também ocorre na Europa
A busca por maior autonomia financeira não ocorre apenas no Brasil. A União Europeia também trabalha na criação do Euro Digital, sistema público de pagamentos eletrônicos inspirado em modelos como o Pix.
Em declaração ao portal Euronews, a presidente do Banco Central Europeu (BCE), Christine Lagarde, afirmou que a iniciativa pretende reduzir a dependência das redes de pagamento estrangeiras e fortalecer a soberania financeira do bloco.
A proposta prevê o lançamento de um projeto-piloto do Euro Digital a partir de 2027. Com informações da Agência Brasil.
