D. Pedro cruzou o Sul Fluminense a caminho da Independência

Redação
12 Leitura mínima

Sul Fluminense – Antes de chegar às margens do Riacho do Ipiranga e pronunciar o grito que entraria para a História do Brasil, D. Pedro percorreu um longo caminho que passou pelo Sul Fluminense e pelo Vale do Paraíba. Fazendas, antigas estradas e cidades da região fizeram parte de uma viagem iniciada no Rio de Janeiro em 14 de agosto de 1822, pouco mais de três semanas antes da proclamação da Independência. O trajeto passou pela antiga São João Marcos, atualmente pertencente a Rio Claro, seguiu por Bananal e São José do Barreiro, já em São Paulo, e continuou pelo Vale do Paraíba até a capital paulista. Em 2023, a reportagem do Diário do Vale acompanhou a Expedição 200 anos da Independência do Brasil.

Comitiva liderada pela Federação das Câmaras Portuguesas de Comércio no Brasil

Parte desse caminho ainda pode ser conhecida atualmente. Algumas construções permanecem preservadas; outras desapareceram. São João Marcos, uma das cidades atravessadas pelo príncipe regente, foi praticamente apagada do mapa mais de um século depois, com a expansão do sistema de abastecimento de água e energia do Rio de Janeiro. Suas ruínas hoje integram o Parque Arqueológico e Ambiental de São João Marcos.

A saída do Rio

A viagem começou em 14 de agosto de 1822. D. Pedro deixou a Quinta da Boa Vista, no Rio de Janeiro, acompanhado inicialmente por uma pequena comitiva. O destino era São Paulo. O objetivo da viagem não era proclamar a Independência. O príncipe regente seguia para a província paulista em meio a uma crise política e tinha como missão pacificar disputas locais e fortalecer sua autoridade.

No primeiro dia, a comitiva percorreu cerca de 11 léguas e chegou à Fazenda Real de Santa Cruz, onde passou a noite. No dia seguinte, D. Pedro retomou a viagem pelo antigo caminho que ligava o Rio de Janeiro a São Paulo. Era uma jornada muito diferente da realizada atualmente pelas rodovias. O percurso era feito sobre cavalos e mulas, por caminhos de terra, serras e áreas de Mata Atlântica. E foi justamente nesse trecho que a história da Independência passou pelo atual Sul Fluminense.

Pedro chega a São João Marcos

Em 15 de agosto, a comitiva chegou à então Vila de São João Marcos do Príncipe. Pedro passou a noite na Fazenda da Olaria, propriedade de Hilário Gomes Nogueira. A área onde estava a fazenda pertence atualmente ao município de Rio Claro e foi posteriormente atingida pela formação do reservatório de Ribeirão das Lajes. A Assembleia Legislativa paulista registra a Fazenda da Olaria como o segundo pouso da viagem. São João Marcos teve participação ainda mais direta na jornada.

Integrantes da região passaram a acompanhar o príncipe. Registros históricos apontam que Cassiano Gomes Nogueira, Floriano de Sá Rios e Joaquim José de Sousa Breves, ligados a São João Marcos, aparecem entre os homens que integraram a comitiva associada à jornada da Independência.

Joaquim José de Sousa Breves se tornaria posteriormente um dos mais poderosos fazendeiros do Vale do Paraíba durante o ciclo do café. O próprio Parque Arqueológico de São João Marcos reconhece a passagem de D. Pedro pela antiga cidade como parte de sua história e produziu, no bicentenário da Independência, o documentário “São João Marcos no Caminho da Independência”, dedicado justamente ao percurso realizado em 1822.

De Rio Claro (RJ) para Bananal

A expedição faz parte do projeto Heróis Portugueses do Brasil, que já conta com duas expedições realizadas pelo patrono e idealizador do projeto, Antonio Bacelar Carrelhas

Na manhã de 16 de agosto, a comitiva deixou São João Marcos e avançou em direção à divisa com São Paulo. Depois de atravessar o território fluminense, D. Pedro chegou à região de Bananal, uma das primeiras localidades paulistas de sua jornada. O destino naquele dia foi a Fazenda Três Barras. Documentação histórica registra que a propriedade pertencia ao capitão Hilário Gomes Nogueira e que D. Pedro se hospedou ali em 1822. A fazenda fica a aproximadamente seis quilômetros de Bananal, próxima às antigas ligações com Barra Mansa e Rio Claro.

A passagem de D. Pedro pela Três Barras ocorreu tanto na ida quanto posteriormente no retorno de sua histórica viagem. A propriedade preservou por muitos anos o quarto associado à hospedagem do príncipe. O roteiro mostra como as atuais fronteiras entre o Sul Fluminense e o Vale Histórico paulista estavam diretamente inseridas no caminho utilizado para ligar a Corte, no Rio, a São Paulo.

Fazenda Pau d’Alho, em São José do Barreiro: outra parada histórica

Fazenda Pau d’Alho, em São José do Barreiro (SP), por onde Dom Pedro passou

No dia seguinte, 17 de agosto, D. Pedro avançou pelo Vale do Paraíba e passou por São José do Barreiro. Ali ocorreu outra das paradas mais conhecidas da viagem: a Fazenda Pau d’Alho. A propriedade havia sido construída poucos anos antes e estava entre as primeiras grandes estruturas rurais da região voltadas para o cultivo do café. A passagem do príncipe pela fazenda é reconhecida por registros históricos e atualmente integra o patrimônio turístico de São José do Barreiro.

Existe ainda uma história repetida ao longo de gerações segundo a qual D. Pedro teria se adiantado à comitiva e chegado à fazenda sem ser reconhecido. Como a propriedade se preparava para receber o próprio príncipe, teria sido tratado inicialmente como um viajante comum e recebido comida na cozinha.

O episódio faz parte da tradição oral em torno da passagem, mas não existem registros documentais capazes de comprovar seus detalhes. A própria divulgação histórica da Fazenda Pau d’Alho ressalta essa ausência de documentação sobre como exatamente ocorreu a recepção. Depois da passagem pela Pau d’Alho, D. Pedro seguiu para Areias.

A expedição “200 anos – Os caminhos da Independência do Brasil” reuniu alunos de uma escola de São José do Barreiro para contar a história da Independência (2023).

O caminho continua pelo Vale

A viagem prosseguiu por localidades que atualmente integram o Vale Histórico e o Vale do Paraíba paulista. Pedro passou por Silveiras e Cachoeira Paulista, chegando a Lorena em 18 de agosto. No dia seguinte, esteve em Guaratinguetá e passou por Aparecida. Depois vieram Pindamonhangaba, Taubaté, Jacareí, São José dos Campos e Mogi das Cruzes. A comitiva foi crescendo durante o percurso, com a incorporação de moradores e integrantes das elites políticas e econômicas do Vale do Paraíba. Pedro chegou à cidade de São Paulo em 25 de agosto. Mas o episódio que transformaria aquela viagem em um dos acontecimentos centrais da História do Brasil ainda estava por acontecer.

De São Paulo para Santos

Depois de permanecer na capital paulista, D. Pedro seguiu para Santos no início de setembro.  A viagem até o litoral tinha objetivos políticos e militares. O príncipe percorreu a Serra do Mar e esteve em Santos para acompanhar a situação da província e suas defesas. Em 5 de setembro, encontrava-se na região santista. Dois dias depois, começou a viagem de retorno para São Paulo. Foi nesse retorno que a história mudou.

As cartas que encontraram D. Pedro no caminho

Enquanto D. Pedro estava em São Paulo e Santos, a crise entre o governo instalado no Brasil e as Cortes portuguesas se aprofundava. No Rio de Janeiro, a princesa Leopoldina, que havia ficado responsável pelo governo durante a ausência do marido, recebeu novas determinações vindas de Portugal. As ordens representavam um duro ataque à autonomia que vinha sendo construída no Brasil. Correspondências foram então enviadas às pressas para alcançar D. Pedro.

O mensageiro Paulo Bregaro partiu em direção a São Paulo levando os documentos. Na tarde de 7 de setembro de 1822, encontrou a comitiva nas proximidades do Riacho do Ipiranga. D. Pedro leu as correspondências.

A viagem que havia começado 24 dias antes no Rio de Janeiro, passado pelas serras e fazendas do atual Sul Fluminense e percorrido o Vale do Paraíba chegava ao momento decisivo. Às margens do Ipiranga, o príncipe rompeu politicamente com Portugal. Nascia o Brasil independente.

Sul Fluminense ficou no caminho da Independência

Mais de dois séculos depois, a viagem de D. Pedro ajuda a revelar uma ligação pouco lembrada entre o Sul Fluminense e o 7 de Setembro. Antes do Ipiranga, houve Santa Cruz. Depois vieram a Serra do Mar, São João Marcos e a Fazenda da Olaria, em Rio Claro. Na sequência, Fazenda Três Barras, em Bananal, e Fazenda Pau d’Alho, em São José do Barreiro.

Era o antigo caminho entre a Corte e São Paulo. São João Marcos não existe mais como cidade. Parte de seu território desapareceu com as intervenções realizadas no século XX para formação e ampliação do sistema de Ribeirão das Lajes. Mas suas ruínas permanecem preservadas e abertas à visitação no atual município de Rio Claro.

O Parque Arqueológico e Ambiental de São João Marcos mantém viva justamente essa memória. Em 2022, nos 200 anos da Independência, o local desenvolveu ações para destacar a participação da antiga cidade no percurso de D. Pedro e a incorporação de moradores da região à comitiva.

Reportagem do jornal Diário do Vale acompanhou a Expedição 200 anos da Independência do Brasil.

 

 

O post D. Pedro cruzou o Sul Fluminense a caminho da Independência apareceu primeiro em Diário do Vale.

Compartilhe este artigo
Deixe um comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

plugins premium WordPress