Aragão chegou à Vila da Fumaça por volta das 13h, almoçou no Boteco da Lazinha e foi ao encontro de Xikito Pury, indígena autodeclarado do Povo Puri
Resende – No meio de uma expedição de 2.200 quilômetros pelas trilhas do Rio de Janeiro, Luiz Aragão parou no tempo. Na tarde da última quinta-feira (17), ao chegar ao Distrito Fumaça, em Resende, o voluntário da Rede Brasileira de Trilhas encontrou muito mais do que um ponto de pernoite — encontrou a história viva de um povo que foi o primeiro a habitar esse território.
Aragão chegou à Vila da Fumaça por volta das 13h, almoçou no Boteco da Lazinha e foi ao encontro de Xikito Pury, indígena autodeclarado do Povo Puri — os primeiros habitantes do Vale do Paraíba antes da chegada dos colonizadores. Xikito, que usa esse nome para marcar sua retomada étnica, apresentou ao expedicionário a história profunda e pouco conhecida daquele vilarejo encantador.
Foto: Divulgação
Uma aldeia que o tempo tentou apagar
O Distrito Fumaça guarda camadas de história que poucos conhecem. Antes de receber o nome atual, o lugar se chamava São Vicente Ferrer — nome do padroeiro, que tem uma belíssima igreja ainda preservada. E antes disso, ainda no período colonial, o território era o Aldeamento São Luiz Beltrão, criado para aldear os indígenas do Povo Puri, que eram senhores do Vale do Paraíba antes do contato com os colonizadores.
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O nome Fumaça chegou de forma polêmica. Na década de 1930, uma lei proibia dois lugares próximos com o mesmo nome, e São Vicente Ferrer de Minas era mais antigo… Um vereador propôs então a mudança para Fumaça, em referência à Cachoeira da Fumaça — sem consulta pública. Muitos moradores mais antigos do vilarejo nunca se acostumaram com o novo nome e continuaram chamando o lugar simplesmente de Aldeia até o fim de suas vidas.
A língua Puri, que Xikito ajuda a preservar, tem suas particularidades. Quando foi codificada para a escrita, adotaram a forma mais simples possível — grafando as palavras como se fala. O “r” dobrado marca sonoridade forte, como em “Rrô!”, que significa “Salve!”. E o “qu” foi substituído pelo “K”. Uma língua que resistiu ao silêncio imposto pela história.
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A cachoeira, o café e os causos do Sr. Joninha
Após o encontro com Xikito, Aragão conheceu a Cachoeira da Fumaça — com mais de dois quilômetros de corredeiras, a maior cachoeira do estado do Rio de Janeiro. Vismaia, de Visconde de Mauá, foi dar um apoio técnico ao Aragão e se prontificou a levar o expedicionário até o local e ele ficou encantado com a pujança da linda cachoeira. Na volta, Dona Laura recebeu o grupo com café e bolo de fubá feitos com alegria.
À noite, o jantar foi na casa de Sr. Joninha e Dona Laura. Entre uma conversa e outra, Sr. Joninha animou-se a contar alguns “mistérios” do lugar — como os moradores chamam as lendas/histórias que guardam a memória viva do vilarejo. Aragão também provou pela primeira vez a Farinha de Fubá Torrado, que a família chama de Farinha de Munho — ingrediente da Paçoca Cacique Pury, receita típica da região, da qual o expedicionário virou fã na hora. O pernoite foi na casa de Dona Maria Benedita, que reservou um quarto especialmente para recebê-lo.
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O caminho que segue para as alturas
Depois de Fumaça, a expedição Volta ao Rio segue em direção a Engenheiro Passos, Maringá e Maromba — onde Luiz Aragão iniciará a subida rumo à parte alta do Parque Nacional do Itatiaia, onde a temperatura chegou a -11,5°C na semana passada, o ponto mais frio do Brasil em 2026.
Até aqui, Aragão já percorreu 1.400 quilômetros de forma totalmente autônoma — 850 a pé com mochila nas costas, 400 de bicicleta e 150 remando em caiaque. O encontro no Distrito Fumaça ficará entre os momentos mais marcantes da jornada: um expedicionário do século XXI sendo recebido pelos herdeiros dos primeiros habitantes do Vale do Paraíba, no mesmo território que um dia foi aldeia Puri.


