Benedito Ruy Barbosa estreou na Globo com ‘O Feijão e o Sonho’ em 1976 e construiu trajetória histórica na televisão

Redação
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SÃO PAULO — A morte de Benedito Ruy Barbosa, aos 95 anos, encerra a trajetória de um dos maiores autores da televisão brasileira. Conhecido por novelas que atravessaram gerações, o dramaturgo estreou oficialmente na Globo em 1976, com “O Feijão e o Sonho”, dando início a uma longa história de sucessos na emissora.

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A novela abriu uma fase importante da carreira do escritor, que passou a construir tramas marcadas por grandes histórias de amor, conflitos familiares, disputas por terra, imigração, coronelismo e pela força do interior do Brasil.

Antes de chegar à emissora, no entanto, Benedito Ruy Barbosa já acumulava experiência na televisão, no teatro, no jornalismo e na publicidade.

Nascido em 17 de abril de 1931, em Gália, no interior de São Paulo, ele passou parte da infância em Vera Cruz, região de cafezais e forte presença de imigrantes japoneses e italianos — universo que mais tarde apareceria em diversas de suas obras.

Com a morte precoce do pai, Otávio Barbosa, Benedito precisou trabalhar ainda menino para ajudar a família. Ao longo da juventude, passou por diferentes empregos e chegou a trabalhar como vendedor de verduras e faxineiro, antes de construir espaço no jornalismo.

Em 1954, foi contratado como revisor pelo jornal O Estado de S. Paulo. Depois, também atuou como repórter esportivo e trabalhou em outros veículos.

A experiência vivida no interior do Paraná inspirou seu primeiro romance, “Fogo Frio”, que posteriormente virou peça teatral e recebeu reconhecimento da crítica.

Primeiros passos na televisão

A estreia de Benedito Ruy Barbosa como autor de novela aconteceu em 1966, com “Somos Todos Irmãos”, exibida pela TV Tupi.

Nos anos seguintes, ele passou por emissoras como Excelsior, Record e TV Cultura, ampliando sua experiência como roteirista e dramaturgo.

Em 1971, escreveu “Meu Pedacinho de Chão”, produção realizada em parceria entre a TV Cultura e a Globo.

Foi nessa obra que o autor começou a mostrar de forma mais clara uma das marcas que carregaria por toda a carreira: o interesse pelo Brasil rural, pela vida no campo, pelas disputas políticas locais e pela transformação social.

A novela tratava de temas como técnicas de plantio, vacinação, educação e realidade do homem do campo.

Briga com a censura durante a ditadura

Mesmo sendo uma obra com caráter educativo, “Meu Pedacinho de Chão” enfrentou problemas com a censura durante a ditadura militar.

Um dos episódios mais lembrados por Benedito Ruy Barbosa envolveu uma cena em que o personagem Giramundo cantava o Hino Nacional.

Segundo o próprio autor relembrou anos depois, a censura tentou impedir a exibição da passagem por considerar inadequado o ambiente em que a música aparecia.

A decisão provocou revolta no dramaturgo.

Isso me deixou indignado”, afirmou ao recordar o episódio.

Benedito Ruy Barbosa contou que enfrentou a censura e conseguiu liberar as cenas. A experiência marcou profundamente o autor e voltou a ser lembrada décadas depois, quando ele revisitou suas próprias obras.

A chegada definitiva à Globo em 1976

A entrada oficial de Benedito Ruy Barbosa na Globo aconteceu em 1976, quando assinou contrato para escrever “O Feijão e o Sonho”.

A produção marcou o início de uma trajetória de grande sucesso na faixa das 18h.

Depois vieram novelas como “À Sombra dos Laranjais”, em 1977, e “Cabocla”, em 1979.

Para o autor, uma novela precisava ter um elemento fundamental: uma grande história de amor.

Essa visão apareceria repetidamente em seus trabalhos, quase sempre colocando paixões intensas no centro de conflitos familiares, políticos e sociais.

‘Cabocla’ e o interior como cenário

Em “Cabocla”, baseada na obra de Ribeiro Couto, Benedito voltou a olhar para o interior brasileiro.

A trama reuniu romance, diferenças sociais e disputas políticas entre poderosos coronéis.

A história ajudou a consolidar a capacidade do autor de transformar pequenas cidades e regiões rurais em cenários de grandes dramas humanos.

Passagem por outras emissoras e retorno à Globo

Após uma passagem pela TV Bandeirantes, onde escreveu “Os Imigrantes”, em 1981, Benedito retornou à Globo.

Na sequência, escreveu produções como “Paraíso”, “Voltei pra Você”, “De Quina pra Lua”, “Sinhá Moça” e “Vida Nova”.

Também participou de trabalhos ligados ao “Sítio do Picapau Amarelo”.

‘Pantanal’ mudou a televisão brasileira

Em 1990, Benedito Ruy Barbosa foi para a TV Manchete e escreveu “Pantanal”, uma das novelas mais importantes da história da televisão.

A obra inovou ao apostar fortemente em gravações externas e ao transformar o bioma brasileiro em parte central da narrativa.

A novela misturou romance, conflitos familiares, misticismo, tradição e natureza.

O enorme sucesso de “Pantanal” consolidou definitivamente o nome de Benedito Ruy Barbosa entre os grandes autores do país.

Décadas depois, a história ganharia uma nova versão, adaptada por seu neto, Bruno Luperi.

‘Renascer’ marcou retorno triunfal

Depois de “Pantanal”, Benedito voltou à Globo e escreveu “Renascer”, em 1993.

Ambientada no interior da Bahia, a novela apresentou o poderoso produtor de cacau José Inocêncio e uma das relações mais difíceis entre pai e filho da dramaturgia brasileira.

A trama reforçou a marca do autor em histórias que atravessavam gerações e misturavam crenças populares, disputas familiares e grandes paixões.

Assim como “Pantanal”, “Renascer” também ganhou nova versão décadas depois.

‘O Rei do Gado’ virou fenômeno

Em 1996, chegou ao ar “O Rei do Gado”, outro marco da carreira.

A novela acompanhava a rivalidade entre as famílias Mezenga e Berdinazi, descendentes de imigrantes italianos.

No centro da história estava o romance entre o poderoso pecuarista Bruno Mezenga, interpretado por Antônio Fagundes, e a trabalhadora rural Luana, vivida por Patrícia Pillar.

A obra também abordou temas de forte impacto social, como a reforma agrária, os conflitos pela terra e a situação dos trabalhadores rurais.

‘Terra Nostra’ e as raízes italianas

Em “Terra Nostra”, Benedito Ruy Barbosa mergulhou na história da imigração italiana no Brasil.

A trama acompanhava Matteo e Giuliana, dois jovens que se apaixonam durante uma viagem de navio rumo ao país, mas acabam separados após o desembarque.

A história tinha forte relação com as memórias do próprio autor, que cresceu em uma região marcada pela presença de imigrantes.

O dramaturgo chegou a contar que escreveu vários capítulos emocionado, por reconhecer nas cenas lembranças de parentes, amigos e momentos da própria infância.

Ideias que atravessaram décadas

Benedito Ruy Barbosa também revisitou suas próprias obras.

Em 2006, participou da nova versão de “Sinhá Moça”. Em 2014, voltou a “Meu Pedacinho de Chão”, agora com uma estética completamente diferente, marcada por cores intensas e cenários de fantasia.

Para o autor, a nova versão permitia colocar na televisão ideias que haviam sido barradas pela censura na produção original.

‘Velho Chico’ e a última grande saga

Em 2016, Benedito escreveu “Velho Chico”, ambientada em uma região ligada ao Rio São Francisco.

A novela voltou a reunir elementos clássicos de sua obra: disputa por terras, poder político, famílias rivais, diferenças entre gerações e um grande amor atravessado por obstáculos.

Foi sua última novela.

Um legado que não envelhece

A influência de Benedito Ruy Barbosa continuou mesmo depois de sua saída da rotina diária de produção.

Seu neto, Bruno Luperi, adaptou para novas gerações dois dos maiores clássicos do autor: “Pantanal” e “Renascer”.

As releituras mostraram que as histórias criadas décadas antes continuavam capazes de emocionar o público.

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