
O uso indiscriminado de medicamentos, especialmente de antibióticos, continua sendo uma preocupação crescente para profissionais de saúde em todo o mundo. A prática da automedicação, a interrupção precoce dos tratamentos e o uso de antibióticos sem indicação médica contribuem para o avanço da resistência antimicrobiana, fenômeno que já é apontado por organismos internacionais como um dos maiores desafios da saúde pública.
O tema tem sido abordado em palestras e atividades promovidas pelo Serviço de Controle de Infecção Hospitalar (SCIH) do Grupo IMNE, que desenvolve ações voltadas à prevenção de infecções, higienização de ambientes e segurança de pacientes e colaboradores. A médica infectologista Andreya Moreira, responsável pelo setor, e a enfermeira Roberta Lastorina alertam para os riscos que o uso inadequado de medicamentos representa tanto para os pacientes quanto para toda a sociedade.
Segundo a infectologista, um dos erros mais frequentes ocorre quando o paciente interrompe o tratamento antes do prazo determinado pelo médico. Muitas pessoas abandonam o antibiótico assim que percebem melhora dos sintomas, sem concluir o esquema terapêutico prescrito. Essa atitude favorece a sobrevivência de bactérias mais resistentes, que podem voltar a causar infecções mais difíceis de tratar.
Diante desse cenário, os profissionais passam a depender de medicamentos cada vez mais potentes. “Em alguns casos, o tratamento deixa de ser realizado em casa com comprimidos ou xaropes e exige internação hospitalar para administração de antibióticos por via venosa, aumentando a complexidade e os custos da assistência”, destaca.
Dados da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) mostram que milhões de antibióticos foram dispensados no país nos últimos anos. Para a especialista, esses números refletem uma cultura de consumo inadequado desses medicamentos e favorecem a formação de verdadeiros “exércitos invisíveis” de bactérias resistentes circulando na comunidade.

Outro problema recorrente é o uso de antibióticos para tratar doenças causadas por vírus, como gripes, resfriados e muitas inflamações de garganta. “Nesses casos, o medicamento não tem eficácia, já que sua ação é restrita às infecções bacterianas. Muitas dessas enfermidades exigem apenas repouso, hidratação e medidas de suporte até que o próprio organismo elimine o agente causador”, comenta a doutora Andreya Moreira.
Resistência antimicrobiana
Algumas bactérias podem se tornar resistentes aos antibióticos atualmente disponíveis, comprometendo a eficácia dos tratamentos futuros e aumentando a vulnerabilidade da população. Medicamentos como amoxicilina e azitromicina tiveram uso amplamente disseminado durante a pandemia de Covid-19, mesmo diante de uma doença causada por vírus. Esse consumo inadequado contribuiu para o fortalecimento de cepas bacterianas resistentes e trouxe novos desafios para os serviços de saúde.
Além da resistência bacteriana, a enfermeira Roberta Lastorina chama atenção para outros efeitos provocados pelo uso indiscriminado de antibióticos. Entre eles estão alterações na microbiota — conjunto de microrganismos que vivem naturalmente no organismo humano e exercem funções importantes na proteção contra doenças.
“Os antibióticos não eliminam apenas as bactérias responsáveis pela infecção, mas também parte das bactérias benéficas que ajudam a manter o equilíbrio do organismo. Como consequência, a pessoa pode se tornar mais suscetível a outros problemas de saúde, incluindo infecções causadas por fungos, muitas vezes mais difíceis de diagnosticar e tratar.”
De acordo com a pesquisadora, o uso racional de medicamentos depende de orientação médica, do cumprimento correto dos tratamentos prescritos e da conscientização da população sobre os riscos da automedicação. “Os antibióticos são recursos valiosos da medicina moderna, e sua eficácia precisa ser preservada para garantir tratamentos seguros e eficientes para as futuras gerações”, conclui Roberta.
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