Foto: Thiago Lontra-Alerj
Estado do Rio – Antes mesmo de o futebol ganhar espaço nas discussões legislativas, a literatura já cumpria o papel de preservar a memória do esporte mais popular do país — como nas crônicas de Nelson Rodrigues, que tinham o futebol e o torcedor como protagonistas. A cada quatro anos, essa paixão se transforma em fenômeno global: nações inteiras param para acompanhar a Copa do Mundo, um hábito que atravessa gerações há quase um século. Em 2026, a decisão do torneio coincide com o Dia Nacional do Futebol, celebrado em 19 de julho — uma data que convida à reflexão sobre o que merece ser preservado no futebol para além das quatro linhas.
Em uma de suas crônicas, publicada em 1958, ano em que o Brasil conquistou sua primeira Copa do Mundo, Nelson Rodrigues defendeu que o brasileiro precisava deixar de lado o que chamou de complexo de “vira-latas” — a sensação de inferioridade em relação ao resto do mundo — e reconhecer o próprio talento futebolístico. Décadas e taças depois, a expressão perdeu parte da força, mas o desafio de valorizar plenamente a relevância do futebol na construção da identidade cultural brasileira segue atual.
No Rio de Janeiro, essa discussão vem ganhando espaço no Parlamento estadual. A Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) debateu e aprovou, nos últimos anos, iniciativas voltadas à preservação da memória, das tradições e da cultura do futebol, além de medidas de inclusão, fortalecimento do papel social dos clubes e incentivo ao futebol feminino.
Alerj reconhece a cultura das arquibancadas
Se o futebol é o coração do esporte, as arquibancadas são a sua pulsação. O reconhecimento dos rituais vividos fora de campo veio com a Lei 10.934/25, que declara a Cultura das Arquibancadas dos estádios de futebol Patrimônio Cultural Imaterial do Estado do Rio de Janeiro — incluindo práticas, expressões musicais, coreografias e apetrechos das torcidas como parte da cultura esportiva. Mais do que um título simbólico, a legislação reconhece o valor das manifestações construídas pelos torcedores e busca preservar a identidade coletiva de diferentes gerações.
A lei exclui expressamente manifestações de caráter racista, homofóbico, de intolerância religiosa ou de incitação à violência e à xenofobia. Essa preocupação também está presente na Lei 10.053/23, que instituiu a Política Estadual Vini Jr. de Combate ao Racismo nos Estádios e Arenas Esportivas do Rio de Janeiro.
Para o historiador e professor Luiz Antônio Simas, cabe ao poder público atuar na salvaguarda dos bens simbólicos da cultura brasileira ligados ao futebol. Ele lembra que a própria Constituição Federal atribui ao Estado a responsabilidade pela proteção desses patrimônios, e defende que o Legislativo precisa estar atento a essa dimensão política, entendendo que a tradição, embora não seja estática, deve ter seus valores fundamentais preservados.
Arquibancada para todos
Preservar a cultura de arquibancada também passa por garantir mais acessibilidade e inclusão para manter viva a experiência de torcer. Entre as iniciativas aprovadas está a Lei 10.296/24, que prevê a criação de espaços reservados e adaptados, com integração sensorial, em estádios e arenas esportivas para pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA), Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) e outras pessoas neurodivergentes.
O psicólogo e torcedor do Flamengo José Leonardo descreve a arquibancada brasileira como um verdadeiro laboratório de experimentos sociais, citando como exemplo, no Rio de Janeiro, os “geraldinos” do Maracanã e a torcida da Barreira do Vasco, em São Januário. Para ele, as arquibancadas funcionam como espaço de contato com a tradição e a manifestação popular, onde torcer pode significar lembrar de um parente que já morreu, reencontrar amigos ou simplesmente assistir a uma partida.
Manter as arquibancadas ocupadas também depende de reduzir as barreiras de acesso. Uma pesquisa da Quaest divulgada em 2023 apontou que 62% dos brasileiros consideram os ingressos de futebol caros. Diante desse cenário, a Alerj colocou em discussão o Projeto de Lei 233/23, que cria o Programa Futebol Para Todos, prevendo ingressos populares equivalentes a 20% do valor normalmente cobrado.
Luiz Antônio Simas também define o futebol como o que as ciências sociais chamam de fato social completo, destacando que seus componentes mais impactantes acontecem fora do campo. Segundo o professor, resgatar sentidos coletivos em um mundo cada vez mais individualizado ajuda a construir pertencimento: torcer para um clube e frequentar uma arquibancada são, para ele, elementos centrais de formação de identidade, sociabilidade e rede de afeto comunitário — dimensão que, na sua avaliação, é essencial para compreender a relevância do futebol na cultura brasileira.
Entre tradição e futuro
Os patrimônios do futebol só permanecem vivos quando novos protagonistas entram em campo. É o caso da Política Estadual de Fomento ao Futebol Feminino, instituída pela Lei 7.576/17, que determina que projetos esportivos desenvolvidos em equipamentos do estado incluam o futebol feminino nas categorias sub-15, sub-17 e sub-20 — uma medida que ganha relevância especial às vésperas da Copa do Mundo Feminina da Fifa de 2027, que será sediada no Brasil.
Essa percepção também alcança os clubes. Na Alerj, tramitam projetos de lei que pretendem reconhecer o America Football Club, um dos mais tradicionais do Rio de Janeiro, e o Nova Iguaçu Futebol Clube, referência na Baixada Fluminense, como patrimônios históricos, culturais e imateriais do estado. Mais do que reconhecer clubes específicos, a discussão reforça a importância das instituições que ajudaram a construir o futebol fluminense em diferentes épocas e territórios.
Para José Leonardo, o papel dessas instituições é lembrar sua contribuição para a inclusão de quem não tem acesso ao futebol de elite — seja pelo custo dos ingressos, seja pelo distanciamento da atual cultura de estádio. Ele cita como exemplos o Bangu, primeiro time a ter jogadores negros na história do futebol brasileiro e palco reconhecido da primeira partida oficial de um jogo profissional no país, e o São Cristóvão, bicampeão carioca, que revelou um dos maiores jogadores da história do futebol.
