Pesquisador da UENF defende medidas preventivas em relação aos efeitos do El Niño nos próximos meses

Redação
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Geógrafo e pesquisador da Uenf, Marcos Pedlowski (Arquivo)

Campos dos Goytacazes e outros 91 municípios do estado do Rio de Janeiro estão inseridos em um Plano de Contingências do governo estadual, por conta de efeitos e reações do El Niño previstos para os próximos meses. De acordo com especialistas, o fenômeno climático deve provocar ondas de calor intenso, seca, ventos e chuvas irregulares. O geógrafo e pesquisador Marcos Pedlowski, da Universidade Estadual do Norte Fluminense, discorre sobre os impactos do El Niño, além das necessidades de medidas preventivas e combativas ao problema que pode se prolongar até 2027.

O que esperar do El Niño nos próximos meses?

Como geógrafo e pesquisador, eu diria que precisamos partir de uma constatação básica: o El Niño não produz os mesmos efeitos em todo o território brasileiro. Enquanto as regiões Norte e Nordeste tendem a enfrentar mais calor, redução das chuvas, secas e maior risco de incêndios; enquanto a região Sul pode sofrer com chuvas excessivas, enchentes e deslizamentos. As regiões Sudeste e Centro-Oeste também podem enfrentar temperaturas mais altas, irregularidade das chuvas e eventos extremos. Por isso, gestores públicos precisam abandonar respostas genéricas e trabalhar com planejamento territorial, sistemas de alerta, fortalecimento da Defesa Civil, preparação dos serviços de saúde e proteção das populações mais vulneráveis. E para isso funcionar de fato há que existir orçamento específico para as medidas de adaptação e de respostas a processos emergenciais. Entretanto, o que temos visto é que até se fala esporadicamente na necessidade de preparar a adaptação climática, mas raramente há o orçamento necessário para realizar medidas básicas para tornar isso algo concreto no cotidiano das cidades.

Área de Campos alagada (Ilustração/Arquivo)

O que a população precisa atentar sobre esse fenômeno climático?

Para a população, informação e antecipação serão fundamentais, mas precisamos também falar de medidas básicas de sobrevivência ao calor extremo, especialmente para milhões de brasileiros que não dispõem de ar-condicionado. É possível reduzir o aquecimento das moradias bloqueando a entrada direta do sol, favorecendo a ventilação cruzada e utilizando tecidos ou roupas molhadas e recipientes com água diante de ventiladores para produzir algum resfriamento por evaporação, sobretudo quando a umidade do ar não estiver muito elevada. Outra medida simples e relativamente barata consiste em pintar telhados e paredes externas de branco ou de cores claras, aumentando a reflexão da radiação solar e reduzindo a quantidade de energia absorvida pelas edificações. Será fundamental garantir a hidratação constante e atenção especial a crianças, idosos e pessoas que trabalham ao ar livre também serão essenciais.

De forma paralela, a população precisa acompanhar os alertas meteorológicos e conhecer os riscos existentes no lugar onde vive. Nas áreas sujeitas a enchentes, enxurradas e deslizamentos, as famílias precisam conhecer previamente rotas de saída e locais seguros. Nas regiões ameaçadas pela estiagem, será necessário utilizar a água de maneira ainda mais cuidadosa e preparar-se para possíveis problemas de abastecimento.

As mudanças climáticas tornam tudo isso mais urgente. O El Niño é um fenômeno natural, mas agora ocorre sobre um planeta mais quente, e essa condição pode potencializar alguns extremos de temperatura e precipitação. Portanto, não podemos tratar cada seca, enchente ou onda de calor como uma emergência isolada. Especialmente em um ano com um ciclo de El Niño que se antecipa poderá ser muito forte, precisamos acelerar políticas permanentes de adaptação climática, melhorando a drenagem urbana, protegendo encostas e margens de rios, ampliando a segurança hídrica, recuperando a vegetação e impedindo novas ocupações em áreas de risco.

Rio de Janeiro com onda de calor intenso (Arquivo/Ilustração)

Qual o papel dos gestores públicos, sobretudo da administração municipal?

É preciso cobrar dos governos municipais a elaboração e, sobretudo, a implementação de Planos Municipais de Adaptação às Mudanças Climáticas, articulados às diretrizes e aos instrumentos desenvolvidos no plano federal, inclusive o Adapta Brasil. Os municípios precisam identificar suas vulnerabilidades, mapear as populações e os territórios mais expostos e transformar esses diagnósticos em investimentos, protocolos de emergência e políticas permanentes. Afinal, é no plano do município que a onda de calor, a seca, a enchente ou o deslizamento deixam de ser uma projeção climática e passam a afetar concretamente a vida das pessoas.

Outro componente urgente dessa adaptação é a arborização urbana. Os municípios precisam elaborar e implementar planos diretores municipais de arborização que ampliem a cobertura vegetal, principalmente nos bairros mais quentes e menos arborizados. As árvores oferecem sombra e promovem evapotranspiração, contribuindo para reduzir as temperaturas da superfície e do ar e para amenizar as ilhas de calor. A arborização urbana, portanto, precisa deixar de ser tratada apenas como elemento paisagístico e passar a integrar a infra-estrutura municipal de adaptação climática.

Diminuição do volume do Rio Paraíba do Sul em período de estiagem (Ilustração)

Enquanto esses planos não avançam, os governos municipais deveriam adotar uma diretriz clara para evitar a erradicação desnecessária de árvores e impedir podas drásticas, ressalvadas evidentemente as intervenções indispensáveis por razões comprovadas de segurança ou fitossanidade. Essa precaução se torna especialmente importante durante o atual ciclo do El Niño e nos períodos de calor extremo. Não faz sentido reconhecer o aumento do risco térmico e, simultaneamente, eliminar justamente uma das formas mais eficientes e acessíveis de regulação microclimática disponível nas cidades.

O que deve ser destacado como enfrentamento dos problemas provocados a partir do El Niño?

Finalmente, existe uma questão social que não pode ser ignorada. Em um país profundamente desigual, adaptação climática também significa democratizar as condições materiais necessárias para sobreviver ao calor extremo e aos demais eventos climáticos. Não podemos transferir para as famílias a responsabilidade por problemas que exigem políticas públicas e investimentos coletivos. O desafio deixou de ser apenas prever o clima: precisamos preparar nossas cidades, nossos territórios e nossa população para um clima que já está mudando.

Marcos A. Pedlowski é professor associado do Laboratório de Estudos do Espaço Antrópico do Centro de Ciências do Homem da UENF

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