O que a faculdade de medicina não ensina: o livro que quebra um silêncio

Redação
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Existe uma frase que quase todo médico brasileiro já ouviu, e quase sempre de alguém mais velho, com ar de conselho: é assim mesmo. É assim mesmo o plantão emendado no consultório. É assim mesmo a agenda cheia e a conta que não fecha no fim do mês. É assim mesmo perder o aniversário do filho, o Natal, o domingo.

Seis anos de faculdade, mais alguns de residência — e nenhuma aula sobre como precificar uma consulta, estruturar um consultório, negociar com um convênio, liderar uma equipe ou administrar o próprio cansaço. O médico brasileiro se forma sabendo diagnosticar. Não se forma sabendo o que fazer com a vida que a carreira vai lhe cobrar.

Cinquenta e sete médicos resolveram escrever sobre exatamente isso.

Os autores, médicos e empresários Caio Saraiva e Vinicius Carruego, lançam entre os dias 31 de julho e 2 de agosto o livro Código Endogin, publicado pela Flecha Books. A obra reúne relatos autobiográficos de 57 médicos coautores, de mais de 20 especialidades e de todas as regiões do país. O lançamento acontece durante o Curso Endogin, na Casa de Destino, em Alphaville, São Paulo.

A lacuna que a formação deixou

O livro chega em um momento de virada dentro da categoria.
O Brasil alcançou 635 mil médicos em atividade no início de 2025 e deve fechar o ano com quase 654 mil, segundo o estudo Demografia Médica no Brasil 2025, produzido por pesquisadores da Faculdade de Medicina da USP em parceria com a Associação Médica Brasileira, o Ministério da Saúde e a Organização Pan-Americana da Saúde. Mantido o ritmo atual, o país pode ultrapassar 1,15 milhão de médicos até 2035 — praticamente o dobro em pouco mais de uma década.

O mesmo levantamento registra uma mudança de comportamento que conversa diretamente com o livro: a nova geração chega ao mercado com outra visão sobre jornada de trabalho e modelos de remuneração, e prioriza conciliar vida pessoal e vida profissional — uma exigência que pressiona tanto o serviço público quanto o setor privado a se adaptarem.

Ao mesmo tempo, o desgaste emocional deixou de ser tabu. Cerca de 30% dos trabalhadores brasileiros apresentam sinais da síndrome de burnout, segundo a Associação Nacional de Medicina do Trabalho, e o país figura entre os que mais registram diagnósticos no mundo.

 

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Vinicius Carruego e Caio Saraiva (Foto: Divulgação)

Entre médicos, estudos apontam maior prevalência de casos graves justamente nos primeiros anos depois da formatura — a fase em que se acumulam plantões para tentar se estabelecer.

É nesse cenário que cresce a procura, por parte dos próprios médicos, por aquilo que a graduação nunca ofereceu.

De cinco alunos a uma comunidade nacional

Tudo começou em janeiro de 2024, com um pedido fora do roteiro.
Cinco médicos que já acompanhavam cursos técnicos ministrados por Caio e Vinicius procuraram os professores querendo continuar. Só que não era mais técnica o que buscavam.

Era o resto — a parte que a graduação não cobre e que a residência trata como assunto menor, quando não deselegante: como cobrar pelo próprio trabalho, como montar uma clínica, como sair da dependência de convênio e de plantão.

Daquela primeira turma nasceu a Endogin. Segundo informações da própria mentoria, a comunidade reúne hoje mais de 300 médicos em diferentes partes do Brasil.

Caio Saraiva atua em Endocrinologia e Metabologia, com especialização pela USP-SP e experiência nas áreas de obesidade e reposição hormonal. Vinicius Carruego é ginecologista e cirurgião, com atuação em cirurgia minimamente invasiva e implantes hormonais no Brasil e em Portugal.

Ao lado do consultório, os dois construíram uma atuação empresarial voltada à formação de outros médicos — e é justamente esse duplo papel, o de quem clinica e também administra um negócio, que a mentoria passou a ensinar. Os encontros giram em torno da discussão de casos clínicos reais, e há trilhas separadas para quem está começando, para quem quer estruturar a própria clínica e para cirurgiões.

Afinal, que código é esse?

O título do livro não se refere a um protocolo clínico. O “código” a que ele remete é um conjunto de princípios que a mentoria diz colocar acima do resultado financeiro: honra, verdade, humildade, disciplina, serviço e generosidade. A ideia é que o crescimento do consultório não pode custar aquilo que levou o médico até ali.

“Existe uma enorme distância entre enriquecer e prosperar”

O trabalho dos dois parte de uma premissa simples e, ainda assim, incômoda dentro da medicina: competência técnica, visão empresarial e responsabilidade ética não precisam ocupar lugares opostos.

Para Caio, o médico precisa reconhecer o valor do que entrega sem acreditar que prosperar significa se afastar dos princípios do ofício.

“Nunca aceitei que médico bom precisava viver pequeno. Por isso, trabalhamos para que o médico tenha confiança para cobrar pelo valor que entrega, sem culpa e sem se diminuir, e para prosperar sem sentir que está traindo a medicina”, afirma.

Vinicius faz questão de marcar que a prosperidade discutida ali não se resume a crescimento financeiro.
“Existe uma enorme distância entre enriquecer e prosperar. Enriquecer é acumular dinheiro. Prosperar é possuir tudo aquilo que é necessário para cumprir o propósito para o qual fomos chamados”, diz.

É uma tese que não corre sem atrito. A aproximação entre medicina e mentalidade empresarial divide a categoria há anos: de um lado, quem defende que o médico precisa dominar gestão para não ser engolido por convênios e plantões; de outro, quem enxerga risco de mercantilização e cobra os limites que o Código de Ética Médica impõe à publicidade e à promessa de resultado. É um debate aberto — e o livro entra nele assumindo um lado.

57 histórias, uma pergunta só

Nas páginas de Código Endogin, essa visão aparece traduzida em trajetórias. Cada capítulo é assinado por um médico ou médica que passou pela mentoria e conta como reorganizou a rotina, aprofundou conhecimentos, estruturou melhor o consultório e refez a relação com o próprio trabalho.

É o caso de Naor Rios, coautor da obra. Em depoimento divulgado pela mentoria, ele conta que a principal transformação não foi de agenda, mas de forma de pensar a medicina — e que passou a enxergar a própria prática de maneira mais estratégica e integrada. Em sua avaliação, o crescimento deixou de significar apenas resultado financeiro e passou a representar a chance de ampliar o impacto do atendimento.

As trajetórias reunidas vêm de áreas bem distintas: Ginecologia e Obstetrícia, Cirurgia, Endocrinologia, Nutrologia, Cardiologia, Pediatria, Clínica Médica, Anestesiologia, Oftalmologia, Patologia, Ortopedia, Urologia, Geriatria, Mastologia, Radiologia, Oncologia, Hematologia, Dermatologia, Psiquiatria, Neurologia, Medicina do Esporte e Medicina de Família e Comunidade, entre outras.

Diferentes entre si, todas esbarram na mesma pergunta: como construir uma carreira médica sólida sem deixar que o trabalho ocupe todo o espaço da vida?

Ao levarem essa dúvida para as páginas de um livro, Caio Saraiva e Vinicius Carruego não apresentam apenas a história da Endogin. Apresentam o retrato de uma geração que decidiu falar abertamente sobre dinheiro, tempo e propósito dentro da medicina.

Os coautores

Participam da obra Afra Barbosa, Alexandre Flório, Alice Zanella Schmalfuss, Ana Paula Fabrício, Ana Valéria Ramirez, Átila Brunet, Caio Pires, Carlos Dubay, Carol Migliorin, Carolina Starling, Claudia Rodrigues, Cybele Monteiro, Daniely Freitas, Divino Mamede, Eduardo Alencar, Fabiana Almeida Miranda, Fernanda Cabral, Fernanda Ferraz, Flávia Alves, Guilherme Lobo, Isadora Machado, Izabela Rezende, Jonas Cortez, Jordana Pereira, Juliana Pinheiro, Kamilla Montenegro, Karina Carolina, Kennya Henriqueta, Larissa Silva e Silva, Livia Trevisan, Luanna Perea, Lucas Tosi, Luciana Tempesta, Marcela Ferreira, Maria Cláudia Rosenbaum, Maurício Friederich, Melissa Parente, Michele Ferraz, Milena Amaro, Milene Buzzato, Naor Rios Passos, Pâmella Couto, Patrícia Magier, Paulo Forti, Regina Rebello, Renata Fernandes, Ridelson Miranda, Rodrigo Queiroz, Ronaldo Borges, Samara Lima, Silvana Guedes, Sinara Paltanin, Thainara Paulucci Centenaro, Twoany Gomes, Vanessa Fraife, Viviane Ferrari e Yole Minervino.

Serviço

Livro: Código Endogin — 57 histórias da maior mentoria do Brasil que ensina o médico a construir riqueza e a ter tempo livre sem corromper a alma
Autores e organizadores: Caio Saraiva e Vinicius Carruego
Coautoria: 57 médicos brasileiros
Editora: Flecha Books
Lançamento: de 31 de julho a 2 de agosto de 2026
Local: Casa de Destino — Alphaville, São Paulo

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