Os donos do negócio? Compra de fazenda por R$ 20 milhões na PortosRio coloca Waguinho e Garotinho sob pressão

Redação
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RIO DE JANEIRO — A aprovação da compra da Fazenda Angelim, em São João da Barra, por aproximadamente R$ 20 milhões, abriu uma crise política que agora alcança o ex-prefeito de Belford Roxo, Waguinho, e o ex-governador Anthony Garotinho.

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Sem documentos que comprovem participação direta dos dois na negociação, a pergunta que circula nos bastidores é inevitável: quem são os verdadeiros donos desse negócio?

A dúvida ganhou força porque a compra avançou depois da exoneração do então superintendente de Planejamento e Desenvolvimento de Negócios, Eduardo Correia Miguez, responsável por assinar um parecer contrário à operação.

O documento classificava a aquisição como financeiramente e estrategicamente inviável para a PortosRio.

Mesmo diante do alerta técnico, a Diretoria Executiva da estatal aprovou o negócio. A operação ainda depende da análise do Conselho de Administração, responsável por dar a palavra final.

Waguinho e Garotinho no centro dos questionamentos

Waguinho e Anthony Garotinho são apontados como nomes de forte influência no cenário político do Estado do Rio de Janeiro.

A proximidade entre os dois e a capacidade de articulação que mantêm nos bastidores colocam a dupla no centro das cobranças por transparência sobre decisões tomadas dentro de estruturas públicas.

Até agora, não foram apresentados documentos que demonstrem que Waguinho ou Garotinho participaram da proposta, da elaboração dos estudos ou da aprovação da compra.

Mas, diante da influência política exercida pelos dois, também não basta o silêncio.

Eles precisam esclarecer se tinham conhecimento da negociação, se conversaram com integrantes da direção da PortosRio, se indicaram pessoas para cargos na estatal ou se participaram de qualquer articulação relacionada ao negócio.

Os donos do negócio? Compra de fazenda por R$ 20 milhões na PortosRio coloca Waguinho e Garotinho sob pressão – Foto: Reprodução

Quando uma operação de R$ 20 milhões avança em ritmo acelerado logo depois da demissão de um técnico contrário à compra, as lideranças políticas mais influentes não podem simplesmente agir como se nada estivesse acontecendo.

Parecer contrário terminou em exoneração

A primeira avaliação técnica sobre a compra da fazenda foi assinada por Eduardo Correia Miguez, em maio.

O parecer teve como base um Estudo de Viabilidade Técnica, Econômica e Ambiental, elaborado pela consultoria Pier 3.

Segundo a análise, o fluxo de caixa projetado não seria suficiente para compensar o investimento estimado em R$ 20,49 milhões.

O relatório também concluiu que apenas cerca de 66 mil metros quadrados dos 580.121 metros quadrados da propriedade poderiam ter utilização comercial.

Na prática, somente 11% da área total teria aproveitamento econômico.

O estudo ainda alertou para a possibilidade de concorrência direta com o Porto do Açu, empreendimento privado localizado na mesma região e que já possui infraestrutura consolidada.

Menos de 24 horas depois de assinar o parecer contrário ao negócio, Miguez foi exonerado.

Logo após a publicação da demissão, Thiago Barbieri Fonseca de Oliveira, substituto imediato da superintendência, pediu para deixar a função.

A sequência de saídas ampliou as suspeitas de pressão interna e mostrou que a compra da fazenda estava longe de ser uma decisão técnica consensual.

Novo estudo transformou prejuízo em negócio milionário

Depois da exoneração do superintendente, a Diretoria de Gestão Portuária elaborou uma nova análise sobre a aquisição.

O relatório, validado pelo diretor Ricardo Ganem Leal, alterou completamente as projeções apresentadas anteriormente.

O aproveitamento comercial da fazenda saltou de 11% para 75%.

A nova avaliação também passou a projetar uma taxa interna de retorno de até 49% ao ano, considerando a possibilidade de locação do terreno sem infraestrutura instalada.

A mudança foi tão expressiva que exige respostas objetivas.

Como uma área considerada praticamente sem aproveitamento comercial passou a ser apresentada, em pouco tempo, como um investimento altamente rentável?

Quais informações justificaram a elevação de 11% para 75%?

Por que o parecer contrário foi descartado logo após a exoneração de quem o assinou?

E quem tinha interesse para que a negociação continuasse?

Compra foi aprovada no mesmo dia

A tramitação avançou rapidamente em 10 de julho.

Na mesma data, a Diretoria de Gestão Portuária apresentou parecer favorável, o setor jurídico validou o entendimento e a Diretoria Executiva aprovou a compra.

A velocidade da decisão chama atenção diante do valor envolvido e das divergências entre os estudos técnicos.

Uma operação de aproximadamente R$ 20 milhões, envolvendo patrimônio de uma estatal, deveria ser cercada de cautela, transparência e ampla justificativa.

No entanto, o que aparece é uma negociação acelerada, marcada por exoneração, mudança radical de parecer e falta de explicações públicas.

Oferta partiu diretamente do proprietário

A proposta não surgiu de um edital público ou de um planejamento previamente divulgado pela PortosRio.

A fazenda foi oferecida diretamente ao gabinete da Presidência da companhia pelo proprietário, o empresário Ari Pessanha Monteiro.

Após receber a oferta, a estatal abriu um procedimento administrativo para avaliar a aquisição.

O empresário é investigado pelo Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ) em procedimentos relacionados a suspeitas de desvio de recursos públicos e atos de improbidade administrativa.

A existência das investigações não representa condenação, e o empresário tem direito à defesa.

Apesar de os estudos terem sido concluídos somente em maio, a Diretoria Executiva já havia autorizado, em reunião realizada em 27 de março, a continuidade das negociações.

Ou seja, o interesse em manter o negócio vivo já existia antes da conclusão definitiva das análises técnicas.

Quem são os donos do negócio?

O caso da Fazenda Angelim deixou de ser apenas uma discussão sobre a compra de um terreno.

A negociação passou a representar uma disputa sobre quem exerce influência dentro da PortosRio e quem possui força suficiente para manter uma operação milionária mesmo depois de um parecer técnico desfavorável.

É nesse cenário que Waguinho e Anthony Garotinho precisam sair do silêncio.

Os dois não podem ser apresentados como participantes diretos da operação sem provas. Mas também não podem escapar da cobrança política diante da influência que exercem e das relações construídas nos bastidores do poder.

Se não tiveram qualquer participação, devem dizer claramente.

Se não conheciam a negociação, precisam explicar como uma operação dessa dimensão avançou sem conhecimento das principais lideranças políticas próximas da estrutura de poder estadual.

E, caso tenham mantido qualquer conversa sobre o negócio, a sociedade tem o direito de saber com quem falaram, o que defenderam e quais interesses estavam em jogo.

A ausência de respostas alimenta a imagem de que decisões milionárias são tomadas longe do público, em ambientes onde poucos mandam e quase ninguém presta contas.

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