RIO DE JANEIRO — A ex-deputada federal Clarissa Garotinho, filha do ex-governador do Rio de Janeiro Anthony Garotinho, entrou no radar de questionamentos sobre o caminho de emendas parlamentares destinadas a organizações sociais no estado.
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O nome de Clarissa aparece em levantamento público relacionado à CPASC — Centro de Pesquisas e de Ações Sociais e Culturais, também identificada como ONG Contato, entidade que recebeu, no consolidado de dados públicos, cerca de R$ 142 milhões em pagamentos de emendas parlamentares entre 2020 e 2026.
Segundo o levantamento, quando ainda exercia mandato de deputada federal, Clarissa Garotinho destinou R$ 3 milhões em emenda para a entidade.
A informação ganha peso em meio ao avanço de investigações da Polícia Federal sobre o uso de emendas parlamentares repassadas a ONGs no Rio de Janeiro. A apuração busca esclarecer se recursos públicos enviados a entidades sociais foram efetivamente aplicados nos projetos previstos ou se houve desvio, favorecimento ou irregularidades na execução.
No caso da CPASC/ONG Contato, o volume de recursos chama atenção pelo tamanho.
Foram R$ 142 milhões recebidos em 38 pagamentos, no período de 2020 a 2026, segundo o consolidado público. A entidade aparece como associação privada sediada no Rio de Janeiro.
Entre os parlamentares individualizados na base estão deputados e ex-deputados de diferentes partidos. No caso de Clarissa Garotinho, o valor associado é de R$ 3 milhões, referente a emenda identificada no período em que ela ocupava cadeira na Câmara dos Deputados.
A emenda ligada à ex-parlamentar aparece em registro do ano de 2022, sob o código 202230750016, com valores identificados para a CPASC.
O fato de uma parlamentar destinar emenda para uma entidade não significa, por si só, prática de crime. A execução do recurso passa por órgãos do governo federal, que são responsáveis por empenhar, liquidar, pagar e fiscalizar os projetos.
Mas, diante de investigações sobre ONGs que receberam recursos públicos, o nome de Clarissa Garotinho passa a aparecer no debate por ter enviado valor milionário para uma entidade que figura entre as maiores recebedoras de emendas no estado.
ONG recebeu R$ 142 milhões
O levantamento mostra que a CPASC/ONG Contato recebeu valores expressivos ao longo dos últimos anos.
Em 2020, foram R$ 11,4 milhões.
Em 2021, o valor saltou para R$ 40,7 milhões.
Em 2022, ano da emenda associada a Clarissa Garotinho, a entidade recebeu R$ 25,6 milhões.
Em 2023, o montante chegou a R$ 50 milhões, o maior valor da série.
Depois, os pagamentos caíram para R$ 10,1 milhões em 2024, R$ 2,5 milhões em 2025 e R$ 1,8 milhão em 2026.
O volume total reforça a necessidade de transparência sobre os projetos financiados, os serviços prestados, os beneficiários atendidos e a fiscalização feita sobre cada repasse.
Clarissa aparece com R$ 3 milhões
No quadro individualizado de deputados federais, Clarissa Garotinho aparece com um pagamento associado à entidade, no valor de R$ 3 milhões.
Ela aparece ao lado de outros nomes que também tiveram emendas vinculadas à CPASC, como Sóstenes Cavalcante, Luiz Antônio Corrêa, Hugo Leal, Ricardo da Karol, Pedro Augusto Palareti, Laura Carneiro, Gurgel, Jorge Braz, Roberto Sales, Carlos Jordy, Wladimir Garotinho, Otoni de Paula e Gutemberg Reis.
Entre os parlamentares listados, os maiores valores individualizados aparecem associados a Sóstenes Cavalcante, com R$ 19,2 milhões, e Luiz Antônio Corrêa, com R$ 18,4 milhões.
Mesmo assim, o caso de Clarissa Garotinho tem repercussão política por envolver a filha de um ex-governador do Rio e uma ex-deputada federal que já ocupou espaço de destaque na política fluminense.
Por que a Polícia Federal investiga esse tipo de repasse
A investigação da Polícia Federal mira justamente o possível uso irregular de emendas parlamentares enviadas para entidades privadas sem fins lucrativos.
O ponto central da apuração é saber se o dinheiro público chegou ao destino correto, se os projetos foram executados, se houve prestação de contas adequada e se os serviços prometidos foram realmente entregues à população.
Em investigações desse tipo, a polícia costuma seguir o caminho do dinheiro: quem indicou a emenda, qual órgão liberou o pagamento, qual entidade recebeu, quem executou o projeto, quais empresas foram contratadas e quem se beneficiou dos recursos.
No caso da CPASC/ONG Contato, o valor total recebido em poucos anos coloca a entidade no centro de uma pergunta inevitável: como uma única ONG conseguiu concentrar tantos recursos de emendas parlamentares no Rio de Janeiro?
Diferença entre emenda e execução
É importante destacar que a indicação de uma emenda parlamentar não significa automaticamente irregularidade.
O parlamentar indica o destino do recurso, mas a execução do dinheiro depende de órgãos públicos federais, convênios, termos de fomento, empenhos, pagamentos e fiscalização.
Por isso, qualquer responsabilização depende de investigação, documentos, prestação de contas e eventual comprovação de desvio ou favorecimento.
Ainda assim, quando uma entidade que recebeu volume milionário passa a ser analisada em meio a investigações sobre emendas, todos os nomes ligados aos repasses passam a enfrentar pressão por explicações.
No caso de Clarissa Garotinho, a pergunta central é simples: qual projeto foi financiado com os R$ 3 milhões, quais resultados foram entregues e como foi feita a fiscalização do recurso público?
Peso político do sobrenome Garotinho
O caso também ganha força pelo peso do sobrenome Garotinho na política do Rio de Janeiro.
Clarissa Garotinho é filha do ex-governador Anthony Garotinho, figura histórica da política fluminense, e já exerceu mandato como deputada federal.
A presença de seu nome no levantamento sobre emendas para a CPASC reacende o debate sobre a relação entre parlamentares, ONGs e o uso de dinheiro público em projetos sociais.
A ex-deputada não aparece, até o momento, como formalmente acusada de desvio nesse caso. O que existe é a identificação de uma emenda milionária associada ao seu mandato e destinada a uma entidade que recebeu volume expressivo de recursos públicos.
A partir daí, a cobrança é por transparência.
Perguntas que precisam de resposta
O caso levanta uma série de questionamentos.
Qual projeto recebeu os R$ 3 milhões indicados por Clarissa Garotinho?
Quantas pessoas foram atendidas?
Onde o serviço foi executado?
Quem fiscalizou a aplicação do recurso?
Houve prestação de contas?
A entrega prometida foi comprovada?
Essas respostas são fundamentais porque o dinheiro saiu dos cofres públicos e deveria chegar à população por meio de ações sociais, culturais ou de atendimento comunitário.
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