Sul Fluminense entra na rota de projeto bilionário da economia verde

Redação
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Foto: Divulgação/Secom-Rio de Janeiro
Mudança é considerada por especialistas a principal virada para que o projeto saia do papel

Sul Fluminense – Paraíba do Sul, Paty do Alferes, Rio das Flores, Quatis, Valença e Vassouras. Esses seis municípios do Sul Fluminense estão no centro de um projeto do governo do estado que pode transformar a economia da região. A criação do Distrito Florestal do Médio Paraíba prevê o aproveitamento de áreas degradadas dessas cidades para o cultivo de eucalipto e outras espécies — uma aposta que promete gerar empregos, atrair investimentos industriais e colocar o Rio de Janeiro no mapa de um setor que movimenta bilhões no Brasil e no mundo.

O estado importa hoje cerca de 90% de todos os produtos madeireiros que consome na indústria. Com apenas 30 mil hectares de florestas plantadas com fins comerciais — o equivalente a 0,5% do território fluminense —, o Rio está à margem de um mercado que, só no Brasil, já ultrapassa 10 milhões de hectares cultivados e registrou crescimento de 32,5% entre 2019 e 2024, segundo o IBGE.

O que está em jogo para a região

Para Henrique Nora Jr., 2º vice-presidente da Firjan e presidente do Sindicato da Indústria de Cerâmica do Médio Vale do Paraíba (Sindicer-MVP), o potencial da silvicultura para a região vai muito além da madeira em si. “Vejo a implantação desses distritos com muito otimismo. É de suma importância para o desenvolvimento do estado como um todo. Especificamente no Sul Fluminense, temos grandes áreas não mais cobertas por mata nativa e que não se prestam à pecuária de grande qualidade. São mais adequadas ao plantio do eucalipto. Isso trará um círculo virtuoso, com emprego, renda, revenda de máquinas, caminhões, tratores, implementos agrícolas e boa oportunidade nos serviços. Tudo vai impulsionar o comércio local e gerar tributos para o estado”, afirma.

O projeto estadual prevê ao todo cinco distritos florestais, com área total de 600 mil hectares, dos quais 324 mil têm potencial efetivo de plantio. A meta é chegar a 100 mil hectares plantados até 2039 — o que representaria, segundo estudo do Instituto Virtual Internacional de Mudanças Globais da UFRJ, a remoção de 7,1 milhões de toneladas de CO₂ da atmosfera até 2035.

Números que mostram o tamanho do mercado

O Brasil é hoje o segundo maior produtor e maior exportador mundial de celulose de eucalipto, com produtividade média entre 35 e 40 metros cúbicos por hectare ao ano — índice superior ao de qualquer outro país produtor. O preço de terras com vocação para silvicultura mais que quadruplicou nas últimas décadas, saindo de cerca de R$ 5 mil por hectare em 2008 para R$ 22 mil em 2024, com retorno estimado em mais de 6% ao ano para arrendamentos — acima das taxas da cana-de-açúcar e dos grãos.

O horizonte dos próximos cinco anos aponta para mais de R$ 100 bilhões em investimentos no setor florestal brasileiro, impulsionados pela abertura de novas plantas industriais de celulose. Só a Suzano investiu R$ 22 bilhões em uma única unidade no Mato Grosso do Sul. A chilena Arauco anunciou outra fábrica no mesmo estado, que vai demandar 400 mil hectares de florestas para abastecimento.

A indústria de cerâmica — setor com forte presença no Vale do Paraíba e no Sul Fluminense — é uma das que mais dependem de madeira como combustível. Atualmente, as empresas da região buscam resíduos madeireiros em outros estados, pagando o custo logístico do transporte por caminhão. Com florestas plantadas localmente, essa cadeia poderia ser abastecida dentro do próprio território, reduzindo custos e emissões.

A virada legal que destravou o setor

Um dos maiores obstáculos para o avanço da silvicultura no Rio de Janeiro era burocrático. Áreas a partir de 200 hectares exigiam estudos ambientais caros e demorados para obter licenciamento. Com a aprovação da Lei Estadual nº 9.972/23, o governo passou a fazer o licenciamento prévio dos distritos, permitindo que cada empresa que se instale precise apenas de uma licença autodeclaratória. A mudança é considerada por especialistas a principal virada para que o projeto saia do papel.

O governo estadual já está estruturando o Comitê de Gestão dos Distritos Florestais e o Instituto Estadual do Ambiente trabalha na elaboração dos relatórios ambientais simplificados de cada área. Uma empresa será contratada para desenvolver o plano de desenvolvimento florestal de cada distrito.

Carbono, borracha e uma economia verde em construção

Além da madeira, o projeto abre espaço para outros mercados. O plantio de seringueiras, por exemplo, poderia abastecer a indústria pneumática instalada na região — hoje totalmente dependente de matéria-prima importada ou de outros estados. A Michelin, presente no Sul Fluminense, aponta que o Brasil atende apenas 40% da demanda nacional por borracha natural. A produção local reduziria custos, geraria empregos permanentes e ajudaria a fixar trabalhadores no campo.

Há ainda o mercado de créditos de carbono, que cresce globalmente em razão da pressão da União Europeia sobre as indústrias exportadoras. Estudos indicam que florestas plantadas em larga escala têm potencial de capturar até 20 milhões de toneladas de CO₂ por ano, gerando ativos financeiros negociáveis no mercado internacional. Para as empresas do Sul Fluminense que exportam produtos industriais, essa equação pode se tornar um diferencial competitivo concreto nos próximos anos.

O Sul Fluminense, que por décadas dependeu quase que exclusivamente da siderurgia, tem diante de si uma janela concreta para diversificar sua base econômica. Paraíba do Sul, Paty do Alferes, Rio das Flores, Quatis, Valença e Vassouras podem deixar de ser apenas nomes no mapa do interior fluminense para se tornar referência em produção florestal sustentável. O eucalipto pode não parecer, à primeira vista, o protagonista dessa transformação. Mas os números dizem o contrário.

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