
Campos vive um dilema silencioso na mobilidade urbana. As principais vias do município se transformaram em gargalos diários, enquanto a crise crônica do transporte público empurrou milhares de moradores para alternativas individuais, especialmente bicicletas e bicicletas elétricas. O resultado é visível nas ruas e cada vez mais sentido nos hospitais.
Apenas no primeiro trimestre de 2026, o Hospital Ferreira Machado (HFM) realizou 2.063 atendimentos por acidentes de trânsito. Em janeiro foram 589 ocorrências, número que subiu para 657 em fevereiro e chegou a 817 em março, revelando uma escalada contínua.
Em todos os meses, os acidentes envolvendo motocicletas responderam por mais da metade dos atendimentos, enquanto os casos envolvendo bicicletas cresceram de forma expressiva, passando de 128 registros em janeiro para 239 em março, ao lado de ocorrências por atropelamentos e colisões automobilísticas que seguem pressionando o sistema de saúde.

A BR-101, concebida como rodovia federal, funciona na prática como uma avenida urbana. Caminhões, ônibus intermunicipais, carros, motocicletas, ciclistas e pedestres disputam espaço, cenário que se repete em vias como 28 de Março, Alberto Torres, Tenente Coronel Cardoso, entre outras. Em horários de pico, pequenos incidentes geram grandes retenções. O fechamento da Ponte Barcelos Martins agravou o quadro, concentrando o fluxo nas pontes da Lapa e General Dutra, sobrecarregando vias como a XV de Novembro e a Avenida Deputado Bartolomeu Lizandro.
Esse cenário convive com outro problema estrutural: o declínio do transporte coletivo. Frota reduzida, veículos sucateados e irregularidade de horários alteraram o comportamento da população, acelerando a migração para bicicletas e, sobretudo, bicicletas elétricas.

Dados nacionais mostram que o número de bicicletas elétricas em circulação no Brasil saltou de 7.600 para mais de 284 mil entre 2016 e 2024. Em Campos, o fenômeno é ainda mais visível. Segundo o empresário Rafael Menezes, proprietário do Bike Center, apenas uma loja vende, em média, cerca de sete mil bicicletas elétricas por ano no município.
“Campos consome anualmente mais de sete mil bikes elétricas. São mais de 600 por mês. A bicicleta elétrica virou solução para muita gente, porque economiza tempo, dinheiro e substitui um transporte público que não funciona. Mas essa solução veio sem preparo da cidade. A gente vê usuário perdido, ciclofaixa confusa, moto entrando onde não deveria. Tenho clientes que já se acidentaram várias vezes e outros que perderam a vida”, relatou o empresário.
Cidade plana e de deslocamentos curtos, Campos sempre teve a bicicleta como meio tradicional de transporte. O avanço dos modais elétricos, no entanto, intensificou conflitos. Ciclovias e ciclofaixas passaram a ser compartilhadas por bicicletas convencionais, elétricas e autopropelidos, com diferenças significativas de velocidade e estrutura.


Ruas com capacidade limitada
Para o arquiteto e urbanista Renato Siqueira, especialista em mobilidade urbana, o problema vai além do comportamento individual. “As ruas têm capacidade limitada de expansão. Quando o transporte público falha, as pessoas buscam alternativas individuais. Isso gera um volume enorme de veículos em uma infraestrutura que não mudou em décadas”, analisa.
Segundo ele, um ônibus padrão pode retirar até 40 veículos das ruas. “Mas Campos convive há pelo menos 40 anos com uma oferta deficiente de transporte coletivo. O resultado é a explosão dos modais individuais, especialmente os elétricos, dentro da mesma malha viária”, afirma.
Acidentes
O impacto dessa mudança chega de forma contundente à saúde pública. O HFM, referência em trauma na região, vem alertando para o aumento expressivo de atendimentos a vítimas do trânsito.

Em audiência pública na Câmara, o diretor do Pronto-socorro, Dr. Fábio Macedo, destacou que, embora motocicletas liderem as estatísticas, os acidentes com veículos elétricos passaram a preocupar pela gravidade das lesões.
“Os pacientes chegam com traumas bastante severos. Muitos desses condutores trafegam em alta velocidade, sem preparo para o trânsito. Isso sobrecarrega a capacidade de atendimento”, afirmou, citando casos envolvendo crianças.
Dados da Fundação Municipal de Saúde indicam aumento de 244% nos atendimentos por acidentes envolvendo motos e bicicletas, incluindo as elétricas, entre janeiro e abril de 2026. No mesmo período, 33 óbitos foram registrados no HFM.

O presidente da Fundação Municipal de Saúde, Artur Borges, chegou a classificar o cenário como uma “epidemia silenciosa”, com mudança no perfil das vítimas e impacto direto na superlotação do Ferreira Machado.
Números que não entram na estatística
O Corpo de Bombeiros alertou que os números oficiais não refletem toda a realidade. Segundo o segundo-tenente Paulo Victor Azevedo Soares, muitos acidentes não geram chamados ao 193.

“Em março deste ano, tivemos 46 atendimentos envolvendo bicicletas. Nos anos anteriores, não passavam de 40. E isso é apenas o que passa pelo 193. Muitos casos não entram na estatística”, explicou.
O comandante do 5º GBM, tenente-coronel Leandro Paiva Silva, também chamou atenção para os riscos operacionais. “Até para sair com ambulância, precisamos ter cuidado com bicicletas que não param. É um problema real da cidade”, afirmou.

Além disso, dados da Polícia Militar ajudam a dimensionar o cenário. Segundo o 8º BPM, entre 1º de janeiro e 31 de maio de 2026, foram registrados 256 acidentes de trânsito em Campos. Motocicletas estiveram envolvidas em 184 ocorrências, seguidas por bicicletas convencionais (30) e bicicletas elétricas (11).
“Os dados evidenciam a significativa participação de veículos de duas rodas nos sinistros de trânsito registrados no período analisado”, informou a PM ao J3News, destacando concentração nos principais corredores viários e rodovias como a BR-101 e BR-356.
O Corpo de Bombeiros participou do debate na audiência pública e apresentou dados e relatos sobre o crescimento dos atendimentos, mas o pedido formal feito pela reportagem para envio das mesmas informações atualizadas não obteve retorno até o fechamento desta edição.

Planejamento atrasado
Durante a audiência pública, especialistas e representantes da sociedade civil apontaram consenso: Campos está atrasada em projetos estruturantes. Para o presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas de Campos (CDL), Fábio Paes, mesmo que intervenções comecem agora, chegarão tarde.
“A última grande intervenção viária foi no início dos anos 2000, com a Avenida Arthur Bernardes. Desde então, não tivemos políticas estruturantes. O que vemos hoje é improviso, sem planejamento e sem avaliação de impacto econômico e social”, criticou.

O subsecretário municipal de Mobilidade Urbana, Sérgio Mansur, destacou que a mobilidade depende de projeto, implantação e fiscalização. “Se uma dessas pernas falha, nada funciona”, afirmou.
“O problema, todos já sabem […]. E a tendência é se agravar, porque essas novas modalidades estão numa tendência de cada dia mais serem utilizadas, devido a questões econômicas, de facilidade de locomoção, decorrentes de falhas que a gente já sabe”, completou o subsecretário.
Entre as propostas apresentadas por Mansur na Câmara está o aproveitamento do leito da antiga linha férrea para criação de novas vias e ciclovias, ligando regiões estratégicas da cidade, além da duplicação da Avenida Carmem Carneiro com ciclovia.
Em paralelo, a Arteris Fluminense, em seminário no SEST SENAT, em Campos, anunciou investimentos na duplicação da BR-101 e construção de novas passarelas para reduzir conflitos viários.
O J3News solicitou posicionamento da Prefeitura sobre medidas para organizar o uso de bicicletas e modais elétricos, reduzir acidentes, minimizar os impactos sobre o Hospital Ferreira Machado e avaliar a situação do transporte público municipal. Até o fechamento desta edição, não houve resposta.
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