As ruas do Centro de Saquarema voltarão a ser tomadas por cores, símbolos religiosos e manifestações de fé durante as celebrações de Corpus Christi. Entre a noite de quarta-feira e a manhã de quinta-feira, dezenas de voluntários participarão da confecção dos tradicionais tapetes de sal, uma tradição que atravessa gerações e integra a identidade cultural da cidade. Promovida pela Paróquia Nossa Senhora de Nazareth, com apoio da Prefeitura de Saquarema, a programação inclui ainda missa campal e procissão pelas principais vias do Centro.
Mais do que um evento religioso, a celebração de Corpus Christi em Saquarema representa um importante patrimônio cultural do município. A tradição reúne moradores de diferentes idades em um momento de devoção, arte e convivência comunitária, fortalecendo o sentimento de pertencimento e preservando costumes transmitidos ao longo das décadas.

Uma tradição que atravessa gerações
De acordo com o historiador Caio Andrade, a tradição dos tapetes de Corpus Christi começou a ganhar força em Saquarema na década de 1990 e, desde então, tornou-se uma das mais importantes expressões religiosas da cidade. Inspirada em costumes trazidos pelos colonizadores portugueses, a celebração é marcada pela produção de tapetes decorativos que servem de caminho para a procissão do Santíssimo Sacramento. Os desenhos costumam retratar passagens bíblicas, símbolos cristãos e elementos ligados à Eucaristia.
O sal como marca registrada de Saquarema
Uma das características que diferencia a celebração saquaremense de outras realizadas pelo Brasil é o uso do sal como principal matéria-prima para a confecção dos tapetes. Enquanto em diversos municípios são utilizados materiais como serragem, areia colorida e flores, em Saquarema o sal tornou-se protagonista devido à sua abundância histórica na região. Com o passar dos anos, essa particularidade transformou-se em uma marca cultural da cidade e ajudou a consolidar a identidade local da celebração.
Resgate de uma tradição histórica
Nos anos que antecederam a pandemia da Covid-19, a tradição enfrentou dificuldades para ser mantida em sua forma original. Segundo Caio Andrade, a escassez de sal levou muitos grupos a substituírem o material por TNT (tecido não tecido), preservando os desenhos, mas reduzindo uma das principais características históricas da celebração. Diante desse cenário, surgiu um movimento de valorização e resgate da tradição, incentivando novamente o uso do sal colorido e a participação popular.
Arte, fé e união durante a madrugada
A preparação dos tapetes começa às 19h de quarta-feira e segue durante toda a madrugada. Enquanto a cidade descansa, voluntários trabalham na elaboração dos desenhos, na delimitação dos espaços e na aplicação cuidadosa do sal colorido. O resultado é uma verdadeira galeria de arte a céu aberto, formada por imagens religiosas e mensagens de fé que ocupam as ruas centrais da cidade até a passagem da procissão.
Patrimônio cultural e sentimento de pertencimento
Além do significado religioso, a tradição desempenha um papel fundamental na preservação da memória coletiva de Saquarema. A participação de crianças, jovens, adultos e idosos permite que conhecimentos e costumes sejam transmitidos entre gerações, fortalecendo os laços comunitários e garantindo a continuidade da celebração.
Para o historiador Caio Andrade, o resgate dos tapetes de sal vai além da dimensão religiosa. “A tradição está diretamente ligada ao sentimento de pertencimento. Muitas de nossas lembranças afetivas da infância estão relacionadas a esses momentos coletivos. Em uma sociedade cada vez mais individualizada, é importante incentivar o senso de comunidade. Essa festa ultrapassa o aspecto religioso, torna-se uma manifestação cultural e faz parte da identidade do povo de Saquarema”, destacou.

